RITAS

RITAS

de Oswaldo Santana




 A abertura do É tudo Verdade 2025 em São Paulo foi com Ritas, de Oswaldo Santana. O filme é uma cinebiografia da lendária cantora brasileira. Já sabemos que Rita Lee é mais que uma extraordinária intérprete mas sua influência reverbera pelos seus modos de ser. Por sua insistência em quebrar tabus, pela aposta em uma juventude libertária, pela recusa à caretice, pelo prazer em viver e criar de modo livre... uma das artistas que melhor representou a liberdade dos anos 1970 mesmo durante os anos de chumbo... e que reverbera até hoje.

Dito isso, como o filme de Santana mostra esse percurso de criação e vida? De forma eficiente, leve, solta, com um ritmo dinâmico, uma montagem funcional... uma boa aposta de recusar as entrevistas-depoimentos de amigos, famosos ou especialistas, e mergulhar seja em imagens caseiras produzidas pela própria Rita Lee em seus últimos anos de vida, seja em imagens de arquivo... especialmente quando o filme mostra a artista apresentando-se nos palcos e sua música, o filme cresce. O filme tem rico trabalho sonoro feito pela Confraria de Sons e Charutos, assinado pelos sempre brilhantes Daniel Turini e Fernando Henna.

Mas, ao mesmo tempo, é preciso dizer que Ritas apresenta um retrato por demais leve e superficial dessa notável artista. Funciona talvez como uma introdução para jovens e neófitos, para passar na tevê. Não há novidades. Faltou uma maior pesquisa e aprofundamento na contribuição dessa artista em nossas artes criativas. Lamento ter que reconhecer que Ritas é um documentário simpático que nos remete ao espírito de cinema da retomada: a subversiva Rita Lee aparece domesticada e institucionalizada, um ícone pop com pouca potência subversiva e totalmente integrada a um sistema funcionalizado. Rita ama seu marido, rega as plantas, cuida dos bichinhos, não usa drogas, conversa com sua neta sobre o instagram, vê álbuns de fotografias, é divertida, nos faz rir, vê a vida de forma leve, etc.

Rita mereceria mais. Domesticado, o filme é um retrato de um cinema brasileiro que mitifica nossos ídolos retirando sua potência subversiva. Dessa forma, domesticados, esses artistas se integram ao mercado editorial, fonográfico, cinematográfico, televisivo, sem contradições ou tensões, embalados como produtos de consumo. Rita, essa mulher tão subversiva e à frente do seu tempo, aparece como um bibelô. Nossos ídolos não envelheceram, o que envelheceu é nossa visão sobre eles.

Fico pensando qual o gesto de, no meio de tantas questões pulsantes sobre o Brasil e o mundo de hoje, que estão pegando fogo, um festival tão importante quanto o É tudo verdade, com uma contribuição tão ativa em torno da tradição do documentário de invenção de novas linguagens, em sua trigésima edição, escolher um filme tão superficial para abrir sua edição, e justamente tendo como palco a Cinemateca Brasileira – na mesma semana que se divulgou o patrocínio da Netflix (R$5 milhões e ainda pela Lei Rouanet) à instituição?

 

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