RITAS
RITAS
de Oswaldo Santana
Dito isso, como o filme de
Santana mostra esse percurso de criação e vida? De forma eficiente, leve, solta,
com um ritmo dinâmico, uma montagem funcional... uma boa aposta de recusar as
entrevistas-depoimentos de amigos, famosos ou especialistas, e mergulhar seja
em imagens caseiras produzidas pela própria Rita Lee em seus últimos anos de
vida, seja em imagens de arquivo... especialmente quando o filme mostra a
artista apresentando-se nos palcos e sua música, o filme cresce. O filme tem
rico trabalho sonoro feito pela Confraria de Sons e Charutos, assinado pelos
sempre brilhantes Daniel Turini e Fernando Henna.
Mas, ao mesmo tempo, é preciso
dizer que Ritas apresenta um retrato por demais leve e superficial dessa notável
artista. Funciona talvez como uma introdução para jovens e neófitos, para
passar na tevê. Não há novidades. Faltou uma maior pesquisa e aprofundamento na
contribuição dessa artista em nossas artes criativas. Lamento ter que
reconhecer que Ritas é um documentário simpático que nos remete ao espírito de
cinema da retomada: a subversiva Rita Lee aparece domesticada e institucionalizada,
um ícone pop com pouca potência subversiva e totalmente integrada a um sistema
funcionalizado. Rita ama seu marido, rega as plantas, cuida dos bichinhos, não
usa drogas, conversa com sua neta sobre o instagram, vê álbuns de fotografias,
é divertida, nos faz rir, vê a vida de forma leve, etc.
Rita mereceria mais.
Domesticado, o filme é um retrato de um cinema brasileiro que mitifica nossos
ídolos retirando sua potência subversiva. Dessa forma, domesticados, esses
artistas se integram ao mercado editorial, fonográfico, cinematográfico,
televisivo, sem contradições ou tensões, embalados como produtos de consumo. Rita,
essa mulher tão subversiva e à frente do seu tempo, aparece como um bibelô. Nossos
ídolos não envelheceram, o que envelheceu é nossa visão sobre eles.
Fico pensando qual o gesto de,
no meio de tantas questões pulsantes sobre o Brasil e o mundo de hoje, que
estão pegando fogo, um festival tão importante quanto o É tudo verdade, com uma
contribuição tão ativa em torno da tradição do documentário de invenção de
novas linguagens, em sua trigésima edição, escolher um filme tão superficial
para abrir sua edição, e justamente tendo como palco a Cinemateca Brasileira –
na mesma semana que se divulgou o patrocínio da Netflix (R$5 milhões e ainda
pela Lei Rouanet) à instituição?
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