[PANORAMA2025] JAMEX E O FIM DO MEDO
[COBERTURA DO PANORAMA COISA DE CINEMA 2025]
Jamex e o fim do medo
de Ramon Coutinho
O cinema possível, o cinema de
garagem continua vivo. É curioso ver Jamex numa sessão completamente lotada no
Panorama Coisa de Cinema em Salvador, quando uma vinheta na abertura anuncia
que, depois do Oscar, os brasileiros voltam às salas de cinema. Porque Jamex
pertence a uma longa linhagem do cinema brasileiro que sempre resistiu às
tentativas não apenas do domínio do comércio ante a criação mas sobretudo que
vem resistindo ao domínio da institucionalização do cinema brasileiro. Pois o
que resta ao artista independente brasileiro, sobretudo no campo do cinema?
Fazer filmes comerciais (render-se à indústria) ou fazer filmes para festivais
(render-se às curadorias). Ser ou não ser, eis a questão!
Jamex é um filme comovente
porque retorna a essa questão de fundo tendo em vista a contribuição do “novíssimo
cinema brasileiro” e do cinema coletivo do Cual. Cual reloaded: Jamex é um
filme do Cual quando o Cual não mais existe, apesar de que o Cual para sempre
permanecerá existindo, a partir do momento em que seus membros se reúnem. Ou seja,
o Cual é como aquelas bandas que não mais atuam de forma contínua mas podem
voltar a se formar para uma nova turnê rs. Jamex é a nova turnê do Cual, o que
mostra que, mesmo depois do seu fim, o Cual continua existindo.
E é curioso pensar que o Cual
reverbera num momento em que ganhamos o nosso Oscar, num momento de anúncio da
Bahia Filmes... O Cual reverbera uma experiência do “cinema de garagem”
brasileiro de meados dos anos 2000 mas também prolonga uma longa tradição do
cinema brasileiro de invenção, que nos remete aos baianos André Luiz Oliveira e
Edgard Navarro e também aos filmes da BelAir, como os de Rogério Sganzerla, que
dizia que o Brasil pode fazer os melhores filmes horríveis do mundo. Jamex é um
“filme orrível”.
Essa é a beleza e a poesia do
gesto desse filme. Daí reside sua sofisticação e sua irreverência. Como um
filme orrível, quero dizer sobre os filmes que desafiam os padrões do bom gosto
e mergulham nas nossas desigualdades e no nosso subdesenvolvimento,
compreendendo nossas precariedades como potência. Avacalhando e divertindo-se
ao longo do processo. Jamex pretende inserir-se nessa linhagem de um cinema
brasileiro de invenção, que teima em não querer se institucionalizar.
Jamex é um filme autenticamente
popular e divertido. Venho reiteradamente dizendo que não podemos ver o popular
como mero sinônimo de filmes comerciais, como um Minha mãe é uma peça, que é uma
visão caricaturizada do popular, o popular distorcido por uma classe média
novelesca. Jamex é popular, mas não o polular novelesco que o cinema comercial
brasileiro pós-retomada incorporou, mas o popular mambembe, que dialoga com a
tradição dos nossos artistas de rua, do circo, dos malabares, dos malabaristas
da vida.
Jamex é um artista preto
periférico que vive de sua arte e precisa entregar uma encomenda a um misterioso
marchand. Essa sinopse é um mero arremedo para que o diretor possa fazer
cinema. Um road movie a pé pelas ruas de Salvador, ou melhor, Salvadolores. As
dores e delícias da cidade, de uma cidade inventada que é real. Salvador ou
Salvadolores, dor, dores, delícias, delírios... Jamex não é mas poderia ser o
próprio Ramon. Jamex é um artista independente visto por um artista independente.
E eles caminham, guiados por situações que vão sendo jogadas pelo arremedo de
narrativa. Num momento, o assistente do Sr. Shinoda dá carona a Jamex, e há uma
hilariante sequência em que o motorista se desespera diante do caótico trânsito
de Salvador, quase numa versão da sequência no carro de Bang Bang de Tonacci.
Em outro momento, Jamex entra na zona radioativa, numa espécie de Stalker do
terceiro mundo, repleto de ruínas, em que encontramos um músico que não toca
axé mas uma música medieval que parece John Dowling. Em outro momento, Jamex tem
seu quadro furtado pelo hilariante “Sunga”, e temos uma perseguição (a pé) pelas
ruas da Salvador, quase como um Pernalonga Looney Tunes (“Sunga” se esconde por
trás de arbustos da praça, como numa paródia mambembe de um desenho animado
infantil).
No final, Jamex finalmente
consegue entregar o quadro ao misterioso sr. Shinoda, e o que o marchand faz? Paga
ao artista e simplesmente queima o quadro, pedindo para seu assistente que tire
fotos de seu ato performático – as fotografias instantâneas viram uma obra de
arte que podem ser expostas na galeria. O merchand-curador tem seu momento apoteótico
de criação/exposição exatamente quando destroi as obras. Mas não há melancolia
ou tristeza quando Jamex vê sua obra destruída pelo sistema. Ele é pago, e vai
viver a vida, celebrar em uma festa sua sobrevivência. A vingança de Jamex é
ainda assim celebrar a vida, os amigos e os encontros.
Jamex é sobre o fim do medo. Sobre
o fim do medo ou o medo do fim? Que medo é esse? Medo do quê? Vejo esse filme
de Coutinho como um comentário metalinguístico sobre o papel do artista e sobre
a contribuição do Cual. Jamex Coutinho simplesmente criam e vivem, sem medo,
sem medo de viver, sem medo de criar, sem medo de errar. No cinema brasileiro,
fruto dos editais e dos orçamentos de milhões, o cineasta tem medo. Ele não
pode errar: ele deve ter a responsabilidade de carregar seu portfolio e fazer o
filme que o integrará ao campo de visibilidade do cinema brasileiro. Filmar sem
medo, viver sem medo: caminhar pelas ruas, curtir e avacalhar, sem que o filme
seja um projeto de institucionalização do artista dentro do sistema-cinema.
Esse gento anárquico de liberdade do filme é coerente com a própria trajetória
do Cual – e comprova que o Cual permanece vivo mesmo após sua dissolução. A
ingenuidade mambembe de Coutinho e sua recusa ao projeto capitalista de
institucionalização do ato de criação representam um gesto político, de recusa,
de subversão, liberdade e independência. Não há melancolia em Jamex, mas uma
leveza, sublimando as dificuldades da cidade (uma cidade pandêmica, violenta e
segregadora) pelas possibilidades da vida e dos encontros. A beleza e a poética
de permanecer fazendo filmes orríveis – prosseguindo uma linhagem do nosso
melhor cinema brasileiro de invenção – sem esperar nada por isso, nenhum
trofeu, nenhum reconhecimento, nenhuma consagração, nenhum sentido. Um filme
completamente mergulhado nas esquinas e becos do presente. Nada menos, nada
mais.
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